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Sabedoria popular

“O povo tem a sabedoria de quem escuta e ouve atenciosamente, mesmo que, em maioria, não seja especialista em comunicação. A sabedoria popular presta muita atenção ao entorno, independente da ordem das palavras...”.

 A caminho da rodoviária, de dentro do táxi, era possível observar que a cidade estava muito bem cuidada. As praças limpas com seus jardins verdejantes. Os espaços coletivos caprichosamente construídos e em ótimo estado de conservação. O bem estar se fazia presente nos rostos e nas expressões do povo nas ruas.
Sempre muito curiosa e em busca de interações, iniciei com o motorista do táxi uma conversa despretensiosa:

- Linda esta cidade. Posso observar que é bem cuidada. Sempre foi assim?
Simpático e tranquilo, ele começa a me contar uma história que definiu os rumos da cidade.
- Moça, nosso prefeito é muito dedicado. Se, por um acaso, a senhorita o encontrasse não o reconheceria como prefeito. Muito jovem e moderno. Anda por aí vestido em calças jeans e camiseta, ás voltas pela cidade, em sua bicicleta.
A minha conclusão foi imediata:
- Então há muitos jovens nesta cidade, não é mesmo? Jovens gostam de votar em jovens.
Esta foi a senha para que ele então começasse a contar o caso que o encantava.
- De jeito nenhum. Este rapaz já havia sido vereador. Pela primeira vez concorreu à prefeitura. Seu concorrente, filho de uma família tradicional e muito rica, estava com quase 80% das intenções de voto, e estávamos há quase duas semanas das eleições, quando o atual prefeito virou o jogo, em uma das ultimas entrevistas, o candidato em vantagem falou – em meio às suas frases de efeito – uma expressão que acabou com sua liderança.
- Que frase foi essa?
- Moça, ele disse que a cidade não precisava de pobres. Foi o que bastou para ele perder as eleições e ficar em completa desvantagem política. O atual prefeito e sua equipe repetiam essa parte do discurso dele e perguntavam ao povo: É este o prefeito que vocês querem? Está ai, perdeu estas eleições e nem sei se ele ganharia as próximas.

Estupefata é a palavra que melhor define minha reação ao escutar esse relato. Como um candidato a prefeito poderia falar algo assim?
Depois de muito raciocinar a respeito e sem conhecer o contexto, concluo que ele deva ter inserido essa frase em meio a um texto que deveria falar sobre melhoria de vida da população. Algo como dizer que, para ter disponibilidade de recursos, não seria necessário fazer a manutenção da pobreza.
A escolha das palavras e a ordem na qual elas foram colocadas permitiu ao concorrente e ao povo fazer suas próprias interpretações e decidir sobre elegerem ou não aquele candidato.
Pobre rapaz! Talvez, em atitude do subconsciente, tenha deixado transparecer suas verdades mais íntimas. A comunicação tem destas coisas, por vezes, ao organizarmos ideias em formato de frases deixamos vir a tona nossas verdades.
O povo tem a sabedoria de quem escuta e ouve atenciosamente, mesmo que, em maioria, não seja especialista em comunicação. A sabedoria popular presta muita atenção ao entorno, independente da ordem das palavras, a intenção estava ali, declarada.
A resposta veio por meio das urnas.

 Irani Ugarelli

Postado por Admin artigos, irani

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